domingo, 11 de março de 2012

A viagem


"Coisas do passado são alegres quando lembram novamente as pessoas que se amam..."

Faltou um prato naquele dia, uma voz naquela sala.
"O médico disse que já podemos levar as roupas dele"
O coração começou a disparar, uma sensação estranha de vazio preencheu os pensamentos.
"Pode acontecer daqui a uma hora ou daqui a vinte e quatro horas, mas que será logo, será."
O único desejo que havia era o de estarmos sonhando, que quando acordássemos perceberíamos que tudo estava bem, que ninguém estava de viagem.
Não foi bem assim...
"Ele não tem mais temperatura da cintura pra baixo."
E um silêncio ainda maior tomou conta de lá...
Aquela falta enorme estava sumindo, indo embora.
Mais vazio, mais vazio...
"Vamos visitá-lo"
Um por um foram indo, enquanto uma nova jornada se iniciava.
Todos agora se separaram em dois grupos, um foi pros anjos da guarda e outro pra segunda casa.
A tarde foi passando e algumas brincadeiras foram tomando conta da agonia.
Quando menos percebemos, estávamos rindo e nos divertindo.
E estavam todos finalmente acordando, quando o telefone toca de novo...
"Aconteceu."
A tarde parecia interminável, mas num piscar de olhos anoiteceu.
Anoiteceu lá fora, anoiteceu aqui dentro, anoiteceu em cada um dos ali presentes...
"Vamos indo..."
E de repente a tarde que não acabava, terminou.
A noite que não começava, eternizou-se.
O adeus que estava prestes a ser dado foi dito.
E chegando lá, sentindo aquela pele fria, o rosto branco, a cama de crisântemos...
Deu-se entendido, por fim, o vazio que havia sido aberto.
E o vazio estava ali, deitado naquela estreita caixa, coberto por flores e saudades.
O prato vazio do almoço continuará vazio, enfim...
Olhávamos para ele, esperando que acordasse, mas não acordava.
Esperávamos que ele dormisse, mas não estávamos preparados para a eternidade que viria.
"Em cada solidão vencida eu desejava o reencontro com meu corpo abrigo"
A noite parecia estagnada, o tempo parecia ter parado para dar um último adeus.
Foram vinte anos de luta e outras tantas eternidades de saudade.
A dor passou, os gritos calaram-se, a espera acabou.
Dia após dia ele foi deixando um pedaçinho do enorme coração com cada um de nós.
Para aprendermos a aproveitar a vida um pouco mais além, amar um pouco mais profundamente.
"Não dá pra parar de lutar, não se pode perder a alegria."
Ele dizia assim, com o corpo todo frágil e a voz já amaciada pelo tempo.
E quando amanheceu o dia sua despedida chegou...
Todos nos juntamos e fomos ao último adeus.
Vê-lo descendo as escadas para ir pro quarto foi arrepiante.
Faz quatro meses que ele foi descansar.
Às vezes ainda juro ouvir seus passos, sentir seu abraço e sua voz.
Meu querido tio Giovani, que saudades que você faz...
Um grande abraço, onde quer que você esteja! Boa viagem!

domingo, 4 de março de 2012

Os vazios são maiores e até infinitos.


Foi tempo demais chorando por sonhos, coisas e pessoas que não valiam as lágrimas que deixei rolar, escondendo as minhas vontades para satisfazer as de outrem. A vontade de ver surgir um sorriso era maior que o meu próprio desejo de sorrir, e só depois de ver fugir de mim o último pingo de felicidade que havia que eu pude entender: o importante, para quem eu achava importante para mim, era fazer de mim uma válvula de escape... para deixar partir sentimentos enrustidos, palavrões guardados, raivas cultivadas e palavras que precisavam ser ditas. Não importa se iria só me machucar ou só fazer de mim mais um assunto de piada nas rodinhas de amigo, como o tapadinho desastrado e mentiroso que só faz servir de degrau pra todos. Não importa, o importante era conseguir fazer dessa minha vontade de agradar um exaustor de maus momentos.

Ao doar aquele último pingo de felicidade eu me vi vazio, não havia estima sequer para me sustentar... e foi quando eu começei a cuidar de mim, fazendo um curativo em cada machucado aberto, especialmente naqueles que não sangravam deveras. Nesse vazio eu busquei abrigo, me apeguei e me apaixonei por mim, pude sentir o quão forte eu era e quanto eram mesquinhos os que se serviam dos meus sentimentos. Fui dando valor cada vez mais ao sorriso que brotava do meu rosto quando me sentia feliz, e pela primeira vez pude contemplar a mim sem parar pra pensar se estava agradando ou não alguém.

Agora vejo que no fundo não era eu que não merecia aquelas pessoas, eram elas que eram pequenas demais para mim. Pequenas de sentimento e compaixão!

Hoje em dia estou descobrindo o valor que tem o amor de quem a gente ama! Foi só depois de aprender a ser feliz por mim mesmo que eu pude ser feliz com alguém e realmente fazer essa pessoa feliz. E eu amo cada segundo com ela, porque sei que o valor que ela dá na pessoa que eu sou, nas coisas que eu faço e no amor que tenho por ela é algo único e incomparável. Não há abrir mão da minha felicidade para vê-la feliz, porque simplesmente as duas são uma só, vê-la feliz me faz feliz e vice-versa.

E nesta noite, parando pra pensar nesses passos que dei e onde estou chegando só há um agradecimento primordial: àquelas mesmas ocasiões que me fizeram estatelar os sentimentos no chão. Muito obrigado pelo egoísmo, pela raiva, pelo ódio e pelos sentimentos falsos, porque foi vendo o quão dolorido alguém poderia me machucar que eu aprendi a dar valor verdadeiro à quem realmente merece, e distinguir o que me faz bem do que me faz mal.

"A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos."