quinta-feira, 21 de março de 2013

A tempestade



  De olhos entreabertos eu passei aquela tarde fitando o céu, com suas nuvens a se mover. Estava feliz, havia naquele momento uma incrível sensação de dever cumprido. Eu aproveitei: aos poucos fui adormecendo, fechando os olhos lentamente, até relaxar o corpo por inteiro... havia, no entanto, algo que me estava me deixando inquieto. Preferi procurar entender mais tarde, queria simplesmente descansar.
  Começei então a enxergar poucas cenas, a pular e embaralharem-se, como numa lembrança de acontecimentos há muito esquecidos. Havia um abraço de gente alta, de voz tranquila e familiar. Pude ver algumas poucas crianças brincando de futebol numa pequena garagem de casa grande e antiga. Alguns personagens da Disney feitos em isopor também foram aparecendo aos poucos, juntamente com velas de aniversário de criança e risadas acaloradas... ah, que delícia! Como era gostoso aquele tempo, de família junta e risada fácil! Alguns churrascos em flashes me enxiam a boca d'água.
  O Sol daquela tarde estava manso, e os ventos calmos e aconchegantes, como bons pensamentos que ora tocam nossa consciência e amenizam momentos de fervor, ora lembram-nos de nossos urgentes deveres e retiram toda a inércia de momentos de preguiça. E ainda assim havia uma perturbação em toda a quietude daquela tarde, e aquilo me deixou curioso. Não ao ponto de me fazer acordar por completo, mas de infiltrar-se, lentamente, naqueles deliciosos pensamentos.
  Então, em meio a amigos e viagens de escola, lembrei-me que, por vezes, esquecia de fazer deveres de casa, e era então chamado a atenção pelos meus mestres acadêmicos. "Nossa", pensei eu, "da onde veio isso?" Mas logo foi-se embora, como asteróide grande que inceideia-se ao toque atmosférico de nosso planeta e nos deixa um pequeno rastro escarlate em meio ao céu azulado de verão. O flash se apagou. Que tarde linda! É uma presença feminina no meu horizonte, de moça linda e inteligente, com passe suave e alegria contagiante. E de repente a inteligência mostrou-se severa, quase como uma verdade indesejável, uma teimosia chata e constante. Vagarosamente eu senti o clima mudando: a brisa gostosa deu lugar a um vento um pouco mais frio. E a tarde desapareceu, comigo esperando o ônibus para casa, sozinho. Rostos novos foram aparecendo, risadas e chôros diferentes eu vi entrando pela sala, sala de aula. Sentia como se fosse um novo ciclo de coisas antigas, já vistas e revistas, mas não aprendidas. Algumas lembranças fizeram meu coração disparar e quase pude sentir meus olhos encherem-se de lágrimas com uma despedida forte daquela gente grande de abraço alto de antes. Mas que vazio que cresceu no meu peito! Que saudades! O que era aquilo?! Na mesma hora eu senti mais alguns outros vazios a preencher meu coração, e me perguntei: mas como pode o nada ocupar tanto espaço dentro de nós? Como pode um coração de vazios continuar batendo? E tudo se apagou... senti umas gotas geladas tocando meu rosto, e quando abri os olhos já não havia mais a tarde linda, apenas nuvens espessas e graúdas para chover. O Sol sumira há horas antes, e tudo o que se via era parte coisa iluminada pelas lâmpadas da praça, parte penumbra solar. Ao passo do piscar destes meus olhos veio uma tempestade de derrubar árvores grandes de raízes fortes. Atravessar a rua era um risco a se tomar, e eu vi então aquela garota, a procura de um vazio para cruzar a estrada. Me aproximei de pronto e senti nela um vazio parecido com o que havia em mim. Quando pensei em ajudá-la tinha em mente fazê-la se sentir segura ao toque da minha mão por entre as gotas de temporal. Mas, entretanto, quem se sentiu mais seguro fui eu ao segurar sua mão! Senti sua força e seu coração em pedaços, e, sem pensar duas vezes, me pus a tentar recolher os cacos daqueles sentimentos partidos, estatelados ao chão. Foi um momento único e apavorante: quanto mais eu retirava os vazios de dentro daquela garota, mais eu sentia que meus vazios iam escapando de mim. Segurei sua mão e atravessei a rua. Ao chegar à outra calçada a tempestade parou e deu lugar a uma linda noite de luar sereno e acolhedor. E eu tive a mesma sensação de felicidade das lembranças de princípio. Notei também que ainda estava de olhos fechados, era um sonho dentro de outro, dentro de uma gostosa noite de inverno, quando ela pousou a mão sobre mim e disse: "amor, vamos pra casa?".