Eu queria fazer carrinhos.
Eis o ponto inicial de tudo: eu queria fazer carrinhos. É, carrinhos, daqueles que a gente brinca quando é criança! Ah, mas que vontade louca que eu tinha de fazer carrinhos... eu poderia passar uma tarde inteira debruçado no chão, de braço estendido e fazendo um carrinho de brinquedo passar de um pedaço de piso a outro, só para ver bem pertinho aquela "barriguinha" que seus pequenos pneus faziam. "Nossa, que carrinho bonito!", "por que os pneus fazem isso?", "será que se eu fizer um carrinho eu entenderei?", "quero fazer um carrinho!". Esses eram os pensamentos daquele mestiço, do alto de seus 5 anos, sem responsabilidades, sem preocupações e sem problemas!
Mas, como se faz um carrinho?
Meu pai me disse certa vez que aqueles carrinhos eram apenas cópias em tamanho pequeno dos carros que víamos nas ruas, e que tudo o que acontecia com eles acontecia nos carros grandes.
- MARAVILHA! Pensei, e passei a me deitar ao lado da rampa da garagem para ver os pneus dos carros do meu pai fazerem aquilo que eu tanto amava ver em miniatura. Era uma delícia! Eu adorava tanto fazer aquilo que eu acho que, após a própria presença de meu pai, esse era o segundo ponto mais alto quando eu ouvia o barulho daquela Caravan amarela chegando... ah, como eu corria pra vê-lo subir a rampa da garagem! Passei boa parte dos meus 5 aos 7 anos fazendo isso, todo santo dia.
Mas, e então, como se faz um carrão?
A partir de certo dia, não lembro qual, o cheiro daquele álcool queimado passou a ser essencial nos meus dias. Era uma delícia, acho até que fora o melhor cheiro do mundo para mim, naquela época. E eu passei a querer sentir esse cheiro a todo custo! Bastava meus tios quererem dar partida em seus carros que eu corria lá, atrás do escapamento, me deitava e ficava sentindo aquele aroma delicioso. Não há necessidade alguma de se dizer o quanto perigoso aquilo era, mas eu adorava...
E quando eu percebi que o que fazia os pneus girarem era o volante? Nossa senhora, não deixava mais meu pai quieto! Era só descer a rua Caminha de Amorim que eu pedia, ao passar ao lado do Habbib's, para "dirigir" o carro... e meu pai, com toda a paciência do mundo, sempre encostava, me colocava em seu colo, e fazia a descida até nossa casa comigo mexendo no volante. E eu me sentia dono daquilo tudo que os pneus tocavam! Me sentia tão dono daquilo que passei a contar quantas Caravans eu tinha ao ver uma trafegando. Lembro-me de não saber nem contar a partir do número 10, mas pedi pra aprender, só pra não perder o próximo carro que apareceria! Acho que no final das contas acabei contando mais de 10 mil Caravans, e acabei parando depois de me esquecer do último número... como se não bastasse, eu queria ter então todos os carros da rua! E passei a contar, em paralelo, quantos Gols, Fuscas, Kombis e quase todo tipo de carro popular que pudesse. Cheguei a 4 mil de um, uns 20 mil de outro, 700 e alguma coisa de outro, e assim por diante.
Certo dia, então, eu cansei de contar carrinhos dos outros achando que fossem meus. Eu queria, de verdade e com a maior vontade do mundo de criar um carro para mim. Minha mãe me disse então que meu pai fazia carros, e eu achei o máximo!
- Pai, o que você fez para fazer carros? Perguntei.
- Engenharia mecânica, ele respondeu.
- Então eu quero ser engenheiro mecânico também! Disse, em êxtase com a descoberta.
E foi assim que comecei a alimentar uma minúscula semente de um sonho: ser engenheiro mecânico.
Pouco tempo depois meus pais me deram meu primeiro videogame - um playstation 1 - junto com o jogo Rally Cross 2. Foi dar banana ao macaco! Nossa mas como eu joguei aquele jogo! Adorava ver o carrinho correr, fazendo as voltas cada vez mais rápido. Um tempo depois, por volta dos anos 2000, meus pais me deram o Gran Turismo 2, meu primeiro simulador de corrida, e lembro-me de meu pai me ensinando a acertar as configurações dos veículos antes de sequer completar 10 anos de idade, aquilo era paixão pura, a mais verdadeira forma de alegria que eu poderia ter por um jogo.
E eu fui crescendo lado a lado com os jogos de corrida, com histórias de Ayrton Senna e com sonhos de engenharia... nossa, como era bom aquele tempo!
E conforme o tempo passou, o sonho foi se consolidando em objetivo real de vida: eu realmente queria fazer carros, acertar configurações, criar dispositivos novos para carros e todo o resto que um aspirante a engenheiro poderia sonhar.
Durante todo o período escolar eu lembro de pensar comigo mesmo, a cada matéria estudada, na forma com a qual aquilo poderia me ajudar a fazer carros. Sem quaisquer bases eu ia inventando coisas e mais coisas em minha cabeça, algumas que realmente aconteciam e outras que nem tanto assim, mas era assim que eu ia montando o meu carro, em meus pensamentos.
Ahh os tempos de cursinho e cursos extra-curriculares, que vontade de voltar no tempo só pra sentir o que era aquilo novamente. Era uma cobrança de mim mesmo tão imensa por minha parte que hoje acabou formando as bases da minha mais intrínseca personalidade. Eu precisava passar naquele vestibular, eu precisava tirar notas boas naquela escola de inglês, eu precisava alcançar a faixa preta no karatê, tudo por causa de um fim maior: eu PRECISAVA aprender a fazer carros. O que tudo aquilo tinha a ver com minha vontade? Até hoje eu não entendi, mas sempre senti que se tudo acontecesse de maneira fluida e positiva, fazer um carro seria então o menor dos meus problemas.
Até que, num dado dia, eu passei no vestibular da FEI. Foi um gosto amargo dentro de uma sensação boníssima: eu iria fazer engenharia mecânica, mas perdi 2,5 anos de minha vida estudando em cursinho para tentar passar na USP. Mas tudo bem, sei que meu pai é um ótimo profissional e ele se formou na FEI, então a FEI deve ser muito boa também.
E desde então, dia após dia, eu tenho batalhado por este ideal, tenho buscado dar o melhor de mim para cada traço feito com minha lapiseira, para cada passo dado dentro daquele lugar. Respirei, almocei, jantei e dormi engenharia mecânica, me doei absolutamente 100% para alcançar meu objetivo, e não foi fácil.
Por muitas vezes parei para pensar se era realmente aquilo que eu queria fazer... nessas vezes, quase que instantaneamente me vinha o garoto dos anos 1996 na cabeça e não restava mais dúvidas, era SIM. O tempo passou, as provas vieram e foram, minhas notas me trouxeram alegrias e tristezas, mas eu nunca desisti. Ao longo desses 5 anos eu agreguei ao meu firmamento amizades para uma vida toda, ensinamentos de ouro e uma certeza inabalável do que eu realmente queria para mim. O último ano me deixou realmente pra baixo, por causa de uma crítica destrutiva de um professor eu perdi totalmente a vontade de fazer aquilo pelos próximos dias, e foi então que eu vi a minha paixão pela engenharia - minha consciência dizia para parar, mas havia algo, emaranhado muito mais profundamente em meus pensamentos que me fazia continuar e continuar e continuar, até recuperar o paixão pela coisa e, enfim, chegar até aqui.
Hoje, dia 16 de Dezembro de 2015 eu tive a certeza de ter passado na última disciplina que faltava, e me sinto mais do que nunca cobrador de mim mesmo. Aprendi, de maneira bem básica, a fazer carros, entendi o que fazia os pneus fazerem aquela "barriguinha" e hoje, mais do que nunca, posso dizer que aquela paixão pelo automobilismo e pela engenharia mecânica vivem dentro de mim, pulsando como um segundo corpo unido pelo mesmo coração.
Sou, enfim, engenheiro mecânico automobilista, formado pelo Centro Universitário da FEI, no 2º semestre de 2015 e me orgulho de dizer isso e de ter meus pais sempre ao meu lado, mudando o que sempre foi preciso mudar.
