domingo, 16 de fevereiro de 2014

A passagem




    A paisagem era linda, de um verde deslumbrante e raios de Sol. De cabeça confortada ao toque do encosto eu observava toda aquela beleza a se revezar... ora bosques com esquilos e pássaros, ora florestas das mais altas coníferas. Por vezes dava para ver lagos distantes, lindos, exuberantes e cheios de vida.

    Acima do horizonte havia pássaros grandes, voando em alvorada, agrupados flecha a flecha, como em desenho ingênuo de criança pequena. Havia cheiros e sons peculiares pelo caminho. E tudo era tão bonito, perfeitamente assimilados àquela realidade passageira, que eu olhava e me parecia eterna.

    Tenho guardado a visão de meu pai, ao volante do sedã da família, nos levando para passear, pra bem longe de casa. As músicas tocavam e a única preocupação na hora era não perder a linda paisagem passageira. No áudio somente nossas músicas favoritas, sem propagandas ou interrupções, apenas as mais belas melodias que tínhamos guardadas.

    Há tempos que esses momentos não se repetem mais... ao menos não na mesma ordem de outrora. Meus velhos foram ascendendo à paisagem, ao passo que eu fui assumindo o volante de nossas viagens. Muitas vezes eles acabam ficando em casa, talvez não haja mais tanta diversão quanto antes... talvez eles estejam cansados de tanto viajar.

    É forte a mensagem que essas viagens me passam, de olhar para o lado e não ver mais meus portos seguros, mas, por vezes, minha amada, com quem um dia, se tudo sair bem, construirei minha família. E eu sei que nessa viagem é responsabilidade nossa fazer com que tudo se dê da maneira mais próxima ao planejamento possível.

    Por algumas noites eu me pego pensando em como serão as coisas quando esta passagem se completar... quando meus pais me virem à imagem de um porto seguro. Confesso que as responsabilidades pesam antes mesmo de caírem sobre meus ombros, e o medo invade meu corpo como febre repentina, deixando um ar de incerteza e inquietude por onde se espalha.

    Como será daqui pra frente? O que eu farei da minha vida? Qual o meu papel em relação aos cuidados com meus pais? Como vou cuidar de tudo ao meu redor? E meus planejamentos? Minhas finanças, meus imóveis e investimentos, como farei para administrar minha vida? Só de pensar já me dá calafrios.

    Observo o horizonte novamente, como quando era criança. Sobre os campos há flores agora, cujo aroma perfuma o ar de maneira misteriosa, quase como se quisesse contar uma história... os pássaros voam em direção a algum lugar... por que voam? Aquele lindo verde da paisagem possui uma certa assimetria esporádica, sem deixar com que se repitam os padrões botânicos de espaços em espaços, e o asfalto está bom demais para ser de rodovias federais, deve haver pedágios à frente; será que eu trouxe dinheiro suficiente para todos?

    E de repente, não mais que repentinamente, as visões se enturvaram, mostrando preocupações às quais eu fui aprendendo a ter. Os detalhes da brisa gostosa das montanhas ficarão para a próxima viagem, quem sabe eu vá de carona com algum grupo de amigos e possa fitar a paisagem.

    Confesso que estou morrendo de medo do tempo passar assim, tão depressa e de maneira absurdamente impetuosa; não há esperas e nem atrasos, o tempo simplesmente vem e vai, e que a vida seja muito boa, todas as vezes que eu tiver a chance de vivê-la.

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