Hoje, às 17:00 horas, deste 20º dia de Fevereiro de 2016, neste sábado, centenas de amigos e familiares, todos num só pensamento, caminharam, física e espiritualmente ao lado de um homem cuja história, datada desde 1933, fora a mais pura demonstração do que a devoção ao amor, a Deus e à honestidade podem construir.Partiu, nesta tarde, para sua última morada física, um homem que fez de sua família o mais forte laço de amor de sua vida, que fez de suas brincadeiras e trejeitos as grandes e maravilhosas lembranças que levaríamos de sua imensidão humana. Um homem que, como todos nós, teve seus altos e baixos na vida, mas que nunca deixou faltar um grão de arroz na mesa de sua família. Não havia luxo, mas o amor era transbordante.
A alegria de ver a família reunida ao redor da mesa, nos almoços de domingo, com sua esposa, de longos 56 anos de matrimônio, seus 5 filhos, 11 netos e 1 bisneto, era a maior prova de vitória na vida que ele conquistara, e ele dizia isso sempre, para todos nós. Um homem extremamente forte, que lutou seus longos últimos anos contra uma terrível doença cardíaca, que não o impediu de fazer, ou ao menos tentar fazer, o que sempre fizera. Honesto como poucos, ele sempre buscou cumprir suas palavras e promessas, um verdadeiro farol para nós, que aqui ficamos com sua saudade.
E essa saudade dói, e dói muito. Dói não pela ida, mas pela certeza de não haver volta de onde ele foi. Saudade que dói ao entrarmos em sua casa, construída em tempos analfabetos e com muito suor de seu trabalho, e não o vermos mais deitadinho, naquelas redes que ele tanto gostava de pestanejar. Saudade imensa do café após o almoço, que nunca mais será o mesmo, das plantas, cultivadas com todo seu amor, que ele com orgulho nos trazia à mesa. Imensa saudade de suas ideias para reunir a família e amigos nos fins de semana, que iam desde simples cafés da tarde, com cuscuz e um bolinho feito em casa, até reformas gerais na casa.
Sempre engajado com a igreja que frequentava, ele e sua família eram vistos como referências de boas virtudes. Seu Zé, vô Zezinho, Zé Vieira... dá saudade só de lembrar chamar seu nome. Dá saudade de lembrar as vezes que atendia o telefone, sempre dizendo "pronto".
Com toda a certeza a vida de muitas pessoas foi transformada pelo seu caráter ímpar, sempre disposto a fazer qualquer coisa para ajudar o próximo.
Ah meu querido avô, quantas palavras eu teria para lhe descrever a este mundo virtual que lê esta nota emocionada, mas nada chegaria perto de conseguir demonstrar a real magnitude de sua incrível pessoa.
O coração aperta ao lembrar de tantas coisas... é um vazio no peito, que ocupa o peito todo. Falta ar, faltam palavras, falta tanta coisa... trocaria meu coração com o seu, vovô, para vê-lo pulsar forte outra vez. Falta você aqui, forte, subindo naquelas jaqueiras e trazendo, de Sergipe, sacos e sacos de tantas dezenas de quilos. Falta você aqui, subindo no telhado pra tirar aqueles galhos da laranjeira, que teimavam em cair sobre as telhas.
Tive a sentimentalmente ambígua oportunidade de passar ao seu lado sua última noite consciente, naquele hospital. Não consegui dormir ao ver suas dificuldades, mas tive o prazer de sentir suas carinhosas mãos a tocar meus pés dizendo "ô meu filho...", sem nunca acabar essa frase. Não precisava, vovô. O maior orgulho de minha vida foi ter feito parte da sua, meu querido avô, e saber o amor que o senhor tinha por mim e pela família inteira. Ficamos aliviados ao saber que sua dor foi embora, e angustiados ao saber que junto com ela foi-se o senhor. Vô, de onde quer que esteja, quero que saiba que te amo, que te amamos! Nós todos, sua família e seus amigos!
Aos amigos que estão lendo, gostaria de passar a cada um de vocês esses trechos, com o amor de meu avô, para que levem consigo e para suas famílias um pouco do que ele nos ensinou.
Fique em paz, meu querido avô, nego feio, Zé Vieira, Zezinho... Sempre amaremos o senhor!
Adaptação da letra da música "Dona Cila", da Maria Gadú:
"De todo o amor que eu tenho, metade foi tu que me deu. Salvando minh'alma da vida, sorrindo e fazendo o meu eu.
Se queres partir, ir embora... me olha da onde estiver, que eu vou te mostrar que eu to pronto. Me colha, maduro do pé.
Salve, salve esse nego, que axé ele tem! Te carrego no colo e te dou minha mão. Minha vida depende só do seu encanto... vovô, pode ir tranquilo, teu rebanho tá pronto.
Teu olho que brilha e não para; tuas mãos, de fazer tudo e até. A vida que chamo de minha... neguinho... te encontro na fé!
Me mostre um caminho agora, um jeito de estar sem você. O apego não quer ir embora... DIACHO! Ele tem que querer!
Ó meu pai do céu, limpe tudo aí! Vai chegar o Zezinho, precisando dormir. Quando ele chegar, tu me faça um favor: dê um manto a ele, que ele me benze aonde eu for.
O fardo pesado que levas deságua na força que tens... teu lar é no reino divino: limpinho, cheirando a alecrim."

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